Correio Brasiliense destaca opinião de Major Olimpio sobre troca de comando na Polícia Federal

O deputado Major Olímpio (SD-SP) não vê risco para os trabalhos desenvolvidos pela instituição. “A PF é uma corporação sólida. Isso não muda em nada os trabalhos que vêm sendo realizados. A lei e o compromisso da instituição continuam da mesma forma e isso não afeta as investigações”, disse.

Sob novo comando, desafio da Polícia Federal é manter a chama da Lava-Jato

Sai o discreto Leandro Daiello e entra Fernando Segóvia, uma escolha particular do presidente, que preferiu não seguir a sugestão do atual diretor da corporação e do Ministro da Justiça, Torquato Jardim

  

 postado em 09/11/2017 06:00

 Renato Souza

PF/Divulgação
O novo diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segóvia, nomeado ontem pelo presidente Michel Temer, assume o cargo com o desafio de manter o andamento da Operação Lava-Jato. Em um momento em que as investigações avançam nas esferas estaduais, o delegado chega com a missão de dialogar com os órgãos envolvidos e dar continuidade às investigações que apuram crimes contra os cofres da Petrobras.

A Lava-Jato é a maior investigação da história da corporação e envolve políticos e autoridades com foro privilegiado que estão no alvo das ações policiais. Com 22 anos de carreira dentro da corporação, Segóvia recebeu a aceitação das entidades de classe e provoca suspense entre parlamentares. No Congresso, a repercussão da troca de comando foi imediata. De acordo com a assessoria da PF, a cerimônia de posse será no próximo dia 20.
O atual diretor, Leandro Daiello, deixa o cargo após quase sete anos — ele é o delegado que permaneceu mais tempo à frente da Polícia Federal desde a redemocratização. Antes dele, Moacyr Coelho ocupou o cargo por 11 anos. Daiello atuou durante o mandato de cinco ministros da Justiça e a troca do posto era cogitada desde o mês de maio, quando o então ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, passou a responder pela pasta. Pelo menos cinco nomes foram cotados para o cargo. O presidente Michel Temer realizou diversas reuniões com o ministro da Justiça, Torquato Jardim, para discutir o assunto. A preocupação era escolher delegado que afastasse a suspeita de tentativa de interferência política na Lava-Jato.

Pressão

Torquato sugeriu o nome de Rogério Galloro, atualmente o número 2 da corporação. Mas Temer decidiu por uma escolha mais pessoal para conduzir os rumos de 146 mil investigações que estão em andamento nas 27 unidades da PF nos estados e no Distrito Federal. O governo sofreu pressão do PMDB para realizar a mudança. De acordo com fontes da PF, o ex-presidente José Sarney teve papel crucial na escolha do novo diretor. Procurado pela reportagem, Sarney negou que tenha influenciado na escolha. “Não indiquei o senhor Segóvia nem fiz qualquer gestão junto ao presidente Temer para que fosse nomeado. O fato de que foi Superintendente da Polícia Federal no Maranhão não significa que sejamos próximos. Enquanto esteve no Maranhão, ocupando o cargo — durante o governo de Jackson Lago —, não estive com ele nem uma vez”, disse.
O deputado Chico Alencar (Psol-RJ) pediu que a sociedade fiscalize o novo diretor. “Essa tentativa de limitar as investigações da Lava-Jato não está começando agora, apenas está se concretizando. É preciso acompanhar com atenção esta nova composição da direção da PF. A casta política está agindo para manter uma articulação antiga em favor de seus interesses”, completou. O deputado Major Olímpio (SD-SP) não vê risco para os trabalhos desenvolvidos pela instituição. “A PF é uma corporação sólida. Isso não muda em nada os trabalhos que vêm sendo realizados. A lei e o compromisso da instituição continuam da mesma forma e isso não afeta as investigações”, disse.
Entre os integrantes da instituição, as reações foram de surpresa diante da decisão do presidente em mudar a gestão. Um delegado, com mais de 15 anos na PF, que preferiu não se identificar, criticou a forma como a alteração na gestão foi anunciada. “O presidente tem autonomia para definir quem ocupa o cargo máximo na PF. Mas esse tipo de mudança deve ser feita com calma e tranquilidade. Estamos em um período em que qualquer ação levanta suspeitas sobre interferência nas investigações. A PF não pode ficar sujeita a essa instabilidade e ingerência política. O ideal seria estabelecer tempo de gestão mínima para o diretor-geral a fim de evitar qualquer ação que prejudique o trabalho que as equipes vêm fazendo.”
As entidades de classe reagiram positivamente e manifestaram apoio ao delegado Fernando Segóvia. A Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF) ressaltou, em nota, a experiência de Segóvia na corporação. “A associação deseja sorte e sucesso ao novo diretor-geral, Fernando Sergóvia, servidor com mais de duas décadas dedicadas à Polícia Federal.” No entanto, a ADPF defendeu mudanças na escolha dos ocupantes do cargo. “Uma das nossas principais bandeiras é a mudança na forma de escolha do diretor. Essa decisão deve ocorrer por meio de lista tríplice, votada pelos delegados, assim como ocorre em outras instituições”, completou o comunicado.
O escrivão Flávio Werneck, vice-presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef), destacou que a troca de comando não era esperada neste momento. “Os policiais federais foram pegos de surpresa com a decisão de mudar o comando da PF. Defendemos que a escolha sempre priorize alguém com preparo de gestão e atente à meritocracia. No entanto, a escolha do delegado Fernando Segóvia está em conformidade com as regras atuais de escolha do diretor-geral”, ressaltou.

O novo diretor

Fernando Segóvia é graduado em direito pela Universidade de Brasília (UnB) e ingressou na Polícia Federal ainda em 1995. O delegado atuou no serviço de inteligência da corporação, que investiga os crimes que ocorrem principalmente nas fronteiras brasileiras. Com larga experiência no combate ao narcotráfico e na atuação contra organizações criminosas, assumiu a Superintendência da PF no Maranhão em 2008. Também foi adido policial do Brasil na África do Sul. Segóvia atuou ainda em operações como Rapina III, que investigou desvios de até R$ 30 milhões em contratos públicos de três cidades do Maranhão.
Apesar do tempo de corporação, o currículo dele é apontado como tímido por delegados frente a importância do cargo.